— Hoje proponho um podcast um pouco diferente. Em vez de nos focarmos num provérbio ou expressão idiomática, eu e o Colin vamos tentar dissecar a letra de uma canção que está repleta de expressões e idiomatismos. A ideia é do Colin que gosta de “perceber” as canções e os podcasts que ouve.
— Pois é, eu sou um fã incondiconal dos Deolinda e há uns tempos eu escrevi um texto sobre a canção “Toninho” tentando descortinar o título mas sem grande resultado pois não parece existir consenso sobre o que quer dizer a palavra “Toninho”.
— Eu acho que te sugeri que Toninho era um diminutivo de Antonino, mas talvez esteja mais próximo da verdade quem disse que a palavra sugere uma associação com “toino” ou “tonho” que são sinónimos de “parvo”.
— Porque dizes isso?
— Porque toda a canção parece descrever um macho pacóvio que diz que faz e acontece mas que, na verdade, é pura e simplesmente tontinho.
— As letras dos Deolinda são frequentemente irónicas e altamente críticas da sociedade portuguesa do início do milénio, assim que tudo é possível.
— Ela começa por dizer que esta personagem tem fama de ser perverso (dizem que és mau), de fazer muitas coisas (ele próprio diz que faz e acontece) e causar desordem (armar confusão). E nos versos seguintes parece descrever o comportamento desta pessoa, ou deste tipo de pessoas, que quando se zangam querem começar logo a distribuir porrada mas que é tudo fogo de vista ou melhor dizendo fingem que são fortes e corajosos mas não passam de gabarolas.
— Gabarolas são pessoas que se gabam de serem valentes sem realmente o serem, não é??
— Isso mesmo. O personagem desta canção, coloca uma aparência de macho pronto a atacar (dar-lhe forte e feio) mas o seu adversário (talvez uma mulher) desvaloriza-o totalmente com os versos: “Ó meu rapazinho, És fraco para mim.”
— Acho que já estou a visualizar a “personagem”! Quando se diz: que ele surge de peito inchado para aparentar ser mais forte do que é, que anda como um gorila macho girando o tronco com a cintura e que arregaça as mangas da camisa para dar uns quantos murros a alguém – o tipo de homem que está a descrever torna-se muito óbvio.
— E como se essa postura de bravado não bastasse, ainda cospe para o chão em sinal de desprezo pelo adversário, desafiando-o a pagar pela ofensa em que incorreu (pagar as favas).
— E para rematar: desafia verbalmente o seu adversário chamando-lhe “cobarde” (anda lá, ó meu cobardolas) e pedindo que lutem um contra o outro (mano a mano).
— Pois é, mas as aparências iludem ou melhor dizendo enganam porque no fim esta personagem não é nada do que aparenta ser. Este tipo de homem fanfarrão (eu faço e aconteço) que se acha o dono do mundo (eu posso e mando) não passa de um presumido cuja fanfarronice é facilmente detectada e desmanchada com um simples “beijinho na boca.” No fim, o feitiço vira-se contra o feiticeiro e é o adversário que acaba a bater nele…
— E o mais irónico é que esse suposto adversário podia ser a mulher ou namorada dele.
— Uma canção típica dos Deolinda, portanto, não concordas, tu que és fã incodiconal deles??
— Por alguma razão é da autoria deles, a canção que se tornou o hino dos jovens vítimas da crise da primeira década do milénio: “Parva que Sou”.
— Concordo. Os Deolinda não apenas conseguiram renovar e popularizar a música tradicional portuguesa e o fado misturando-lhe elementos de folk e pop como também produziram letras memoráveis, cheias de humor e mordazmente críticas do quotidiano e da sociedade portuguesa.
LISTA DE EXPRESSÕES MENCIONADAS
de peito inchado
dizer que faz e acontece
pagar as favas
posso e mando
o feitiço vira-se contra o feiticeiro