Olá a todos! Depois de uma longíssima ausência de vários meses retomamos as nossas emissões semanais.

Esta semana vamos apresentar a expressão ser um zé ninguém.

Antes de começar, penso que vai ser preciso explicar como se formam os nomes em Portugal. Tradicionalmente, os portugueses têm geralmente nomes muito compridos e mesmo que acabem por ser conhecidos apenas pelo seu primeiro e último nome como por exemplo Fernando Pessoa e Fátima Lopes, na verdade estes nomes são apenas versões mais curtas de nomes que incluem geralmente dois nomes próprios e dois apelidos.

O nome completo de Fernando Pessoa era Fernando António Nogueira Pessoa. Fernando e António são dois nomes próprios bastante comuns em Portugal, mas o mais comum costumava ser José muito provavelmente por influência do catolicismo já que José é o nome do pai de Jesus. O nome da mãe de Jesus, Maria, é também muito popular em Portugal e pode ser usado em combinação com outro nome como Maria Alice, Maria João, Maria José ou Maria Albertina, ou isoladamente com parece estar de novo na moda.[i]

Quanto aos apelidos e, ao contrário do que acontece na vizinha Espanha, o primeiro apelido é o apelido materno e o segundo e, habitualmente, último, é o nome do pai. Voltando ao exemplo dado anteriormente, Fernando António Nogueira Pessoa, Nogueira é o apelido da mãe do Fernando António e Pessoa o apelido do seu pai.

Note-se ainda que no Brasil, diz-se sobrenome para descrever o nome de família porque naquela variedade da língua a palavra apelido é sinónimo ou melhor dizendo significa o mesmo que alcunha isto é um nome usado em vez do nome próprio para qualificar, por vezes de forma crítica ou depreciativa uma característica física ou psicológica da pessoa.

Uma alcunha é usada apenas em contextos muito familiares e informais e nem sempre com o conhecimento ou consentimento da pessoa a que faz referência pois pode designar uma característica menos boa dessa pessoa.[ii]

É importante não confundir alcunha ou cognome com diminutivo. Enquanto cognome e alcunha são referências adicionais que podem substituir ou acrescentar informação ao nome próprio como nos seguintes exemplos: Camões, o zarolho ou D. Sebastião, o desejado, um diminutivo é simplesmente uma versão carinhosa de um nome próprio como nos casos de Mariazinha, Ronaldinho, Ricardinho, Luizinho, Huginho e Zézinho.

Um diminutivo forma-se geralmente acrescentando o sufixo [z]inho aos nomes, como em Maria, Ronaldo, Ricardo, Luís e Hugo ou, como no caso de Zézinho, acrescentando o mesmo sufixo à palavra que é o diminutivo de José. Um moço chamado José Maria pode, entre os seus familiares e amigos próximos, ser conhecido como Zé Maria e da mesma maneira uma moça chamada Maria José, pode responder ao nome de Maria Zé.

A grande maioria dos diminutivos corresponde simplesmente a uma redução do número de sílabas do nome para que seja mais fácil e rápido de pronunciar como no caso das duas sílabas do nome José que passa a uma em Zé. Outros exemplos deste tipo de diminutivo seriam: Mar-ga-ri-da que passa a Gui-da, Ma-nu-e-la e Ma-nu-el que passam a Ma-ne-la e Ma-nel ou Ma-né, respetivamente. Há também alguns diminutivos que não correspondem a uma redução silábica como no caso de Francisco que se transformou em Chico como no nome artístico do músico e escritor brasileiro Chico Buarque que na verdade se chama Francisco Buarque de Hollanda.

Esta longa explicação sobre como se formam os nomes e os dominutivos dos portugueses ajuda a perceber a expressão desta semana: ser um zé-ninguém.

Considerando que Zé é o diminutivo de José e que um nome próprio é frequentemente seguido de um apelido ou sobrenome, Zé Ninguém soa a um nome como José Silva ou Maria Santos. Mas esta pessoa não é apenas um Zé qualquer ou melhor dizendo um José comum, anónimo, entre os milhares de Josés que existem em Portugal, é um Zé-Ninguém isto é um Zé sem importância ou valor.

Descrever alguém como um Zé-Ninguém é sugerir que essa pessoa não tem nenhuma característica que o distinga dos demais ou que não vale absolutamente nada, é insignificante ou impotente. Como nos seguintes exemplos:

Sou um pobre-diabo que não conseguiu realizar nenhuma das suas metas, um zé-ninguém com quinze anos de esforços literários e nada para mostrar. 

No mundo do futebol, ele é um nada, um Zé Ninguém. Ninguém presta atenção ao que faz e muito menos ao que diz.

Gradualmente, ela foi conquistando poder e rapidamente deixou de ser uma Zé Ninguém para passar a ser uma Mandachuva.

Como ilustra o último exemplo, o oposto de um Zé Ninguém — que podemos escrever com ou sem hífen é um ou uma Mandachuva.[iii] Uma pessoa que tem o poder de mandar no tempo e muito particularmente ordenar que chova ou que pare de chover é extremamente poderosa e influente —exatamente o antónimo ou o contrário de Zé-Ninguém. Nos seguintes exemplos a expressão descreve o dono ou chefe máximo de algo:

Apenas quando o mandachuva do programa deu o OK eles puderam avançar com as gravações.

Nenhum dos filhos do empresário conseguiu chegar a mandachuva da empresa.

Antes de terminar gostaríamos ainda de mencionar as palavras: fulano, sicrano e beltrano — que podem ser usadas em conjunto ou separadamente para descrever um ou vários indivíduos indeterminados. Estas palavras descrevem, tal como Zé Ninguém e Zé Povinho, o anonimato e são usadas para fazer referência a alguém indeterminado — que pode ser qualquer pessoa ou até mesmo qualquer um de nós. Para a semana daremos exemplos e explicaremos melhor estas expressões.

 


[i] Conheça os nomes mais populares de 2016 neste artigo publicado no jornal Público [consultado a 10 de janeiro de 2018] [voltar ao texto]
[ii] Se quiser saber mais sobre as diferenças entre apelido, alcunha e sobrenome poderá ver esta rúbrica do programa Cuidado com a Língua [consultado a 10 de janeiro de 2018] [voltar ao texto]
[iii] Grafia alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990 [voltar ao texto]

OUTRAS EXPRESSÕES MENCIONADAS
ser um mandachuva

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