É frequente as expressões idiomáticas servirem como uma estratégia para dissimular um erro cometido ou uma asneira feita ou dita. Funcionam inclusivamente como um eufemismo.

Queres dizer que são expressões mais suaves ou humorísticas usadas para disfarçar uma ideia desagradável?

Isso mesmo! As expressões desta semana são um bom exemplo disso.

Imaginar alguém a meter os pés pelas mãos ou melhor dizendo a trocar os pés pelas mãos ou a tentar usar os pés para fazer as mesmas coisas que as mãos fazem ou vice-versa é bastante cómico e, consequentemente, uma maneira humorística de descrever uma atrapalhação.

A sociedade é feita de regras e é impossível não as quebrarmos acidentalmente por desatenção ou simplesmente por sermos descuidados. Reconhecer que fizemos ou dissemos algo errado ou ofensivo não é fácil e portanto recorrer a uma máxima ou sentença torna a admissão da nossa culpa mais simples.

Tens razão, é mais fácil reconhecer que erramos, ofendemos alguém ou fizemos uma asneira dizendo que metemos água ou que metemos os pés pelas mãos.

A água é um bem precioso mas quando é demais pode causar danos materiais graves e frequentemente dispendiosos. Como quando chove excessivamente e os rios transbordam e há cheias ou simplesmente quando deixamos uma torneira aberta e provocamos acidentalmente uma inundação em nossa casa e, possivelmente, na dos vizinhos, Assim, meter água é uma boa imagem para descrever uma situação em que, sem querer, fizemos ou dissemos alguma coisa de errado ou que causou ofensa no nosso interlocutor. Como nos seguintes exemplos:

— Acho que meti água
— Porquê?
— Disse ao Pedro que estava ali uma tipa antipática à procura dele e parece que a senhora é a nova namorada dele…


— Já meti água. O André pediu-me o telefone da minha amiga e só depois de lhe ter dado o número é que me lembrei que ela me pediu para nunca dar o número de telefone dela a ninguém.


— Aquela rapariga é uma desbocada. Nunca pensa antes de falar e por isso está constantemente a meter água.

A sentença meter os pés pelas mão também pode ser usada para descrever uma asneira que dissemos ou fizemos. De facto, as duas máximas podem substituir-se uma à outra e o significado da frase permanece o mesmo. Os exemplos dados para a expressão meter água continuariam a fazer sentido se usássemos a sentença meter os pés pelas mãos pois em todas aquelas situações estamos a descrever um erro cometido ou uma asneira feita.

S. Para além de descrever um engano, o coloquialismo meter os pés pelas mãos também pode descrever uma atrapalhação ou confusão acidental como nos seguintes casos:

— Comprei o último livro do Mário Zambujal para oferecer à Celestina no aniversário dela. Era o que ela queria, não era?
— Lamento informar-te mas meteste os pés pelas mãos. O que ela pediu foi o último CD do António Zambujo.


— Acabo de conhecer o novo Diretor Geral e já meti os pés pelas mãos… Sou mesmo burra!
— O que é que fizeste agora?
— Dirigi-me a ele usando o nome do ex-Diretor Geral que ele veio substituir. Ele corrigiu-me amavelmente mas acho que não achou piada nenhuma.