Esta semana vamos explicar um velho provérbio da língua portuguesa: Deus dá nozes a quem não tem dentes e dentes a quem não tem nozes. Note-se, no entanto, que a segunda parte da frase raramente se diz.

Quando pensamos no significados literal do adágio não faz absolutamente sentido nenhum. Pode até parecer cruel que um Deus ofereça a uma pessoa desdentada ou sem dentes uma noz cuja casca é duríssima. Mesmo que os nossos dentes sejam muito fortes é bastante difícil, se não mesmo impossível, partir a casca da noz para poder comer o fruto que está no interior. Assim, parece que Deus nos está a oferecer algo que nunca vamos conseguir comer ou a fazer-nos um favor que, na verdade, não nos beneficiará nunca.

Pois é, este axioma é uma forma caricata ou irónica de criticar uma situação em que alguém recebe uma benesse ou tem acesso a uma oportunidade de forma não merecida.

Queres dizer que o provérbio descreve uma situação em que uma pessoa que recebe uma oferenda ou dádiva sem ter feito nada para a merecer?

Exatamente! Quando achamos que alguém recebeu algo sem ter feito nada para justificar essa oferta dizemos receber (algo) de mão beijada. Esta locução ou frase feita está, muito provavelmente, associado ao facto de em séculos passados ser habitual beijar-se a mão de pessoas influentes ou hierarquicamente superiores.

Esta forma de cumprimento (que exigia uma genuflexão, pois para beijar a mão de alguém é preciso inclinarmo-nos ou ajoelharmo-nos perante essa pessoa) funcionava como uma demonstração de enorme respeito, admiração mas também bajulação.

Assim era. E em troca desse respeito ou bajulação esperava-se receber algumas benesses e oferendas. Assim, o ato de receber uma prenda ou um benefício da pessoa a quem beijamos a mão ou bajulamos passou a designar-se por receber um presente ou benefício da mão que beijávamos ou receber (algo) de mão beijada.

Então qual é a diferença entre receber algo de mão beijada e dar Deus nozes a quem não tem dentes?

Dar ou receber de mão beijada descreve simplesmente o facto de alguém receber uma prenda ou beneficiar de um privilégio. Funciona sobretudo como constatação dessa situação. É verdade que está implícita uma pequena recriminação ou crítica por estarmos a receber algo a troco de uma bajulação. Quando usamos o ditado dar nozes a quem não tem dentes — transferimos a ênfase do ato de dar ou receber para o factor de o recipiente ou destinatário dessa dádiva não apenas não ser merecedor ou merecedora de tal mas também não saber o que fazer com esta prenda. Talvez os exemplos de uso possam ajudar a explicar a diferença:

—Deus dá nozes a quem não tem dentes… Recebeste esses bilhetes de mão beijada e agora estás a protestar que os lugares são muito atrás e não consegues ver bem o palco… Considerando que os bilhetes para esse espetáculo se esgotaram em 2 horas, devias dar-te por feliz.

—Ofereceram-me uma viagem num cruzeiro mas eu não sei onde ir…
—Deus dá nozes a quem não tem dentes… Se fosse eu saberia exatamente onde ir!

—Há pessoas que não sabem dar valor ao que têm. O meu vizinho conseguiu uma vaga na melhor universidade do país mas recusou-a para ir fazer um ano de voluntariado.
Deus dá nozes a quem não tem dentes

—Eu devia ter desconfiado que havia uma razão para o meu marido me oferecer a nossa casa de praia de mão beijada durante o processo de divórcio. O que ele queria era ficar com a nossa outra casa e o carro.