Já em episódios anteriores falámos da importância do mar na vida dos portugueses e a expressão de hoje vem na continuidade de expressões do tipo navegar à bolina (episódio 21) e chegar a bom porto (episódio 50). O movimento das águas do mar que faz com que o seu nível aumente e diminua de 12 em 12 horas a que chamamos maré alta e maré baixa influencia a entrada e saída dos barcos do porto e consequentemente tem um forte impacto na vida dos marinheiros e das suas famílias. Não espanta, portanto, que o sentido figurativo que a palavra adquiriu tenha que ver com bem estar psicológico ou disposição de um indivíduo. Assim, quando queremos dizer que estamos satisfeitos, de bom humor e bem com a vida dizemos que estamos de maré. Esse significado pode também ser transferido para a nossa predisposição, vontade ou disponibilidade para realizar uma atividade ou colaborar num evento. Como no seguinte exemplo retirado do conto da Ilha Desconhecida de José Saramago:

Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado seria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.

Despachar ou responder afirmativa ou negativamente aos pedidos feitos ao rei dependia, de acordo com o narrador deste conto, da disposição da sua mulher-a-dias. Podemos até substituir a expressão sem mudar o sentido da frase dizendo “despachava sim ou não conforme estivesse bem disposta ou não.

Também podemos dizer que estamos ou andamos em maré de sorte ou de azar, como nos seguintes exemplos:

—Ando em maré de azar…
—Porquê?
—Ultimamente, tudo me corre mal. Primeiro perdi as chaves de casa, depois o passe do autocarro e agora a carteira. Tenho que ir à bruxa…

—Não vais acreditar, comprei 5 raspadinhas e em todas elas me saiu dinheiro. Não queria acreditar na minha sorte.
—Eh pá! Parece que estás em maré de sorte — não queres fazer uma vaquinha
comigo para jogarmos no Euromilhões?

E há ainda a frase remar contra a maré que significa enfrentar grandes adversidades ou ir contra a corrente ou o status quo.

Usamos essa expressão sobretudo para descrever as pessoas que têm a coragem de desafiar a autoridade ou a opinião dominante e fazer o contrário do que faz toda a gente ou melhor dizendo que se opõem à corrente ou são contracorrente. Eis um exemplo de uso:

Os brasileiros pararam de remar contra a maré e renderam-se aos inúmeros benefícios do comércio eletrónico…