— No podcast da semana passada falámos da expressão ter ou meter uma cunha usada para descrever uma situação em que pedimos a alguém para nos fazer um determinado favor ou interceder por nós quando queremos obter algum benefício e fiquei curiosa — será que no Brasil também têm a mesma expressão ou usam outra?

— No Brasil, não dizemos meter uma cunha mas falamos em compadrios. A palavra faz referência a um forte relacionamento entre pessoas que podem ou não ter laços de sangue isto é pertencer ou não à mesma família. Quando alguém que ocupa um lugar, geralmente no meio político, onde tem poder de decisão, e essa pessoa intercede a favor de alguém (que pode ser um amigo, um familiar ou um simples conhecido a quem se deve um favor), então estamos perante uma situação de compadrio. Há também muitas pessoas que são chantageadas a favorecer outros porque têm o rabo preso ou melhor dizendo porque têm algum segredo que não querem ver revelado.

— Que interessante! A palavra compadrio também é usada em português europeu com o significado de proteção injusta ou exagerada mas nunca ouvi a expressão ter o rabo preso... Acho, no entanto, que se percebe bem o que a expressão sugere.

— Ah, pois é! A imagem que sugere é bastante mais óbvia que a relação entre cunha e a expressão estar à cunha usada para descrever qualquer coisa que esteja completamente cheira.

— Realmente não há nenhuma relação lógica entre o objeto e a expressão, mas se imaginarmos um local onde está tanta gente que se torna difícil fechar as portas — tal como acontece quando usamos uma cunha de porta — então torna-se mais clara.

— Como por exemplo o metro ou o ónibus na hora de ponta em que as pessoas se empurram para conseguir entrar e fechar as portas, é isso?

— É isso mesmo. Podemos dizer que “nas horas de ponta, o metro está à cunha.”

— Mas existem muitas outras expressões para descrever essas situações em que um determinado local está particularmente cheio de gente.

— Para além de estar à cunha, também podemos dizer estar à pinha ou apinhado de gente. Pinha é o fruto do pinheiro e a expressão está relacionada com o facto de ser tão compacto. Apinhado quer dizer juntar, encher, amontoar e é sinónimo de empilhar ou guardar uma coisa em cima de outra e a imagem é de um número tão grande de pessoas que para caberem num determinado espaço precisam de se empilhar ou apinhar umas em cima das outras...

— Em Portugal também dizem “serem mais que as mães” para descrever multidões?

— Esse é um idiomatismo extremamente informal ou coloquial. Mas o seu uso apresenta uma pequena nuance em relação às outras que acabamos de explicar.

— Qual é essa ligeira diferenciação?

— Enquanto as primeiras expressões só descrevem a multidão presente no local, esta sugere surpresa em relação ao número pessoas presentes. Quando usamos esta expressão não estamos apenas a dizer que havia uma multidão no local mas que aquele número de pessoas nos surpreendeu ou melhor dizendo que não estávamos à espera de encontrar tanta gente como acabamos por encontrar.

— Já percebi. No domingo passado fui à praia pensando que a iria encontrar deserta devido ao mau tempo e fiquei surpresa quando afinal encontrei uma competição de body board e os concorrentes que estavam dentro de água à espera de uma onda eram mais que as mães.

— É isso mesmo! Excelente exemplo de uso da expressão!

— E que exemplos podemos dar das outras expressões?

Hoje o supermercado estava apinhado de gente porque estavam a fazer promoções incríveis.

— Essa expressão pode ser substituída pelas outras sem mudar nada na frase. Podemos dizer:

Hoje o supermercado estava à pinha porque estava a fazer promoções incríveis.

ou

Hoje o supermercado estava à cunha porque estava a fazer promoções incríveis.

— E já agora aproveito para te perguntar: sabes qual é o oposto destas expressões?

— A expressão que descreve um local completamente vazio de pessoas? Estar às moscas!

— Precisamente! Só falta dar um exemplo de uso:

O bar da minha rua está às moscas na maior parte dos dias, mas ao sábado os convivas são mais que a mães.


Diálogos de Cristina Água-Mel & Sónia Santos

OUTRAS EXPRESSÕES MENCIONADAS
estar à pinha
apinhado de gente
estar às moscas
ter compadrios
preso pelo rabo

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