No texto do podcast da semana passada usámos a expressão voltar à vaca fria com o sentido de abandonar uma deambulação linguística por outros assunto e regressar ao tema em debate ou mais precisamente à expressão que estávamos a explicar.

Voltar à vaca fria é um idiomatismo frequentemente usado pelo autor do texto ou do discurso para explicar ao seu leitor ou ouvinte que vai regressar ao tópico e dessa forma reconhecer que se afastou, intencional ou acidentalmente, da temática principal. A frase mais frequentemente dita ou escrita é:Mas voltando à vaca fria… Exatamente como fizemos no último podcast.

Esta expressão pode igualmente ser usada entre pessoas com alguma familiaridade entre si para pedir ao interlocutor, que decidiu enveredar por outros assuntos e parece estar a afastar-se cada vez mais do tema em debate, para voltar ao que estava a dizer antes de começar a divagar. Nestes casos, o falante dirá, recorrendo a uma entoação de pedido ou súplica: Voltando à vaca fria… Nestas circunstância a expressão funciona apenas como uma chamada de atenção, um pedido para que o orador deixe de divagar e retome o tópico da conversa.

A mesma declaração pode ser usada para interromper o orador e tomar a palavra. Não será a forma mais simpática, educada e delicada de exercer o direito de intervir num debate pois está implícita uma crítica ao conteúdo do discurso do orador e por isso deve ser usada somente entre amigos ou pessoas com as quais temos bastante confiança. Um exemplo de uma situação de uso seria, entre amigos ou em contextos informais de trabalho, quando a conversa toma um rumo diferente daquele que nos interessa e desejamos interromper o orador para expor a nossa própria argumentação. E em vez de cortarmos abruptamente a palavra ao orador para falarmos do tema que nos interessa, esperamos uma pequena pausa no discurso e à laia de desculpa por re-introduzir o tópico que mais nos interessa, dizemos: Voltando à vaca fria… Neste tipo de situação a frase funciona não apenas como um aviso que queremos falar de outra coisa como na situação descrita no parágrafo anterior mas também como um acabrunhado um pedido de desculpa por interromper o falante para trazer a brasa de volta à nossa sardinha (ver episódio 50).

Existem várias sugestões quanto à origem desta expressão mas, na minha opinião, a explicação mais verosímil é apresentada por Sérgio Luís de Carvalho no livro que mencionamos na semana passada. Este historiador acredita que a frase é uma “reminiscência de hábitos alimentares” portugueses do final do século XV, início do século XVI e para corroborar o seu argumento cita uma carta escrita por Garcia de Resende (1470-1536) na qual, o poeta nascido na cidade de Évora no ano de 1470, recomenda a um amigo que, ao jantar, volte à vaca fria que sobrou do almoço (2014: 169). Pelos vistos, os portugueses abastados do final do século XV tinham por hábito grelhar bifes para comer na refeição que faziam a meio do dia e mais tarde comiam o que tivesse sobrado mas sem requentar, frio portanto.

Considerando que a carne, sobretudo se estiver mal passada, se estraga rapidamente e, tendo em conta que não existiam muitos métodos de preservação de alimentos na época parece-me bastante plausível que se existissem sobras do almoço estas fossem prontamente ingeridas ao jantar para não se estragarem. Acrescente-se ainda que é bastante difícil aquecer um bife grelhado sem lhe retirar o teu paladar e textura e portanto também não surpreende que estas sobras de bifes fossem servidas frias.

Mesmo nos nossos dias, facilmente constatamos que um bife rapidamente arrefece e por isso parece-nos bastante lógico que até a mais pequena distração antes de começar a comer fará com que a carne esteja fria quando dermos a primeira dentada. E assim, recomendar a alguém que se concentre em comer o seu bife de vaca, que entretanto até já arrefeceu, é uma excelente maneira de sugerir ao nosso interlocutor que não se perca em deambulações e volte àquilo que é realmente importante.