Na semana passada vários meios de comunicação social portugueses publicaram uma notícia sobre o ex-Primeiro Ministro de Portugal (2002-2004) e ex-Presidente da Comissão Europeia (2004-2014), José Manuel Durão Barroso, cujo título continha a expressão preso por ter cão, preso por não ter.

De acordo com as notícias, a expressão foi usada pelo próprio Durão Barroso em resposta a uma pergunta sobre as críticas que lhe foram dirigidas depois de se ter divulgado que iria passar a trabalhar para o grupo financeiro multinacional Goldman Sachs. Segundo o entrevistado, é impossível agradar a toda a gente pois há sempre pessoas que criticam um aspecto da questão e outras que criticam o seu oposto. Na opinião deste político, haverá sempre indivíduos que o criticarão por se reformar e passar a viver à custa dos impostos pagos pelos contribuintes e outros que o recriminarão por encontrar outras fontes de rendimento.

Infelizmente, desconhece-se a origem desta expressão popular usada para descrever uma situação em que, independentemente daquilo que se disser ou fizer, seremos sempre criticados ou recriminados.

Em vez de preso por ter cão, preso por não ter também se ouve a frase pecar por ter e por não ter, sobretudo quando se pretende sublinhar a impossibilidade de agradar a facções opostas. Esse mesmo significado está presente na expressão de origem erudita agradar a gregos e troianos cuja fonte é a lendária Guerra de Tróia que durou dez anos e só terminou graças à brilhante ideia tida por Odisseu de construir um cavalo de madeira para oferecer aos troianos e dessa forma penetrar na suas fortificações.

Ao contrário das expressões preso por ter cão, preso por não ter e pecar por ter e por não ter que são usadas exclusivamente em situações em que reconhecemos a impossibilidade de agradar a toda a gente e muito particularmente a pessoas com visões opostas, o aforismo agradar a gregos e troianos pode apresentar esse significado mas também o seu oposto. Quer dizer, pode ser usado para reforçar a ideia de que é impossível satisfazer pessoas de pontos de vista opostos e para elogiar o esforço necessário para contentar não apenas os nossos amigos como também os nossos inimigos como no caso do cavalo de Tróia desenhado por Odisseu que tanto agradou aos troianos que o levaram para dentro das suas muralhas e não podia ter deixado os gregos mais felizes pois permitiu-lhes ganhar a guerra.

Os seguintes exemplos ilustram estas duas situações:

— Ninguém consegue agradar gregos e troianos ao mesmo tempo. Tens que escolher um deles: ou A ou B.

— A gastronomia é, sem dúvida, uma área que agrada a gregos e troianos.

Apesar de ser um idiomatismo usado pelo cânon da literatura brasileira, Machado de Assis (1839-1908), preso por ter cão, preso por não ter é bastante mais conhecido em Portugal do que no Brasil. Eis vários exemplos de uso:

— Se não vou ao concerto, o meu namorado zanga-se, se vou os meus pais chateiam-se… Não há solução ou saída airosa possível… Preso por ter cão e preso por não ter.

— Quando tomei a decisão de deixar o meu emprego, já sabia que iria ser preso por ter cão e por não ter pois é completamente impossível agradar a gregos e troianos.

— Contigo nunca sei o que fazer… Se fico calada, criticas-me por não ter uma opinião, se digo o que penso, recriminas-me porque não gostas de ouvir o que tenho para dizer… Basicamente, peco por ter e por não ter ou melhor dizendo pelo que digo e pelo que não digo.

Antes de terminar gostaríamos ainda de explicar a expressão ter ou receber um tacho que apareceu frequentemente nos comentários à notícia supramencionada. Quando dizemos que alguém tem ou recebe um (bom) tacho, estamos a sugerir que o salário que aufere é excessivamente alto para o trabalho que faz e consequentemente não é merecido. É frequente os políticos que abandonam os seus cargos encontrarem tachos ou melhor dizendo empregos para os quais não têm as competências ou as qualificações necessárias e estão a ser clara e exclusivamente remunerados pelos favores que fizeram enquanto detinham os seus cargos políticos ou pelos contactos políticos que fizeram durante as suas carreiras e ainda mantêm. Eis alguns exemplos de uso:

— Atualmente, a grande maioria dos governantes está ao serviço do lobbies pois quando deixarem os seus postos querem ter um bom tacho.

— Aquele discurso em defesa do indefensável é prova que mais cedo ou mais tarde vai receber um bom tacho.

OUTRAS EXPRESSÕES MENCIONADAS
pecar por ter e por não ter
agradar a gregos e troianos
ter/receber um tacho