Em tempo de santos populares, marchas e arraiais ou festa de bairro parece-me bem falar do provérbio puxar a brasa à sua sardinha.

O início do verão em Portugal é marcado por várias celebrações associadas aos santos populares: São João, Santo António e até São Pedro. Estas festas populares e de rua fazem de tal forma parte da cultura e tradição popular portuguesas que foram levadas para o Brasil. Naquele lado do Atlântico, esta celebração de origem pagã que glorifica a chegada do verão ficou conhecida como festa junina.

As cidades de Lisboa e Porto que têm como santos padroeiros, respetivamente, Santo António e São João, aproveitam o dia ou mais precisamente o fim de semana para realizar várias atividades que incluem desfiles ou marchas populares e festas ao ar livre nos principais bairros populares. Durante estas festas, há vários costumes que se vão mantendo e atualizando incluindo fazer grandes fogueiras, oferecer manjericos com mensagens alegóricas e comer sardinhas assadas.

Quem está a assar sardinhas num fogão ou grelhador a carvão vai naturalmente desejar que a melhor brasa esteja diretamente por debaixo da sua sardinha para que esta asse mais depressa. Desta situação real facilmente se extrapola a ideia de é natural envidar todos os esforços para concretizar um objetivo ou realizar da melhor forma possível uma tarefa. Por outras palavras: fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para conseguir o que pretendemos ou levar a bom porto os nossos desejos. Puxar a brasa à sua (ou nossa) sardinha tornou-se assim uma esta expressão popular que descreve a intenção natural, que todos partilhamos, de agir de acordo com as nossas próprias conveniências ou objetivos.

Apesar de descrever um comportamento natural e compreensível, esta expressão idiomática funciona também como uma crítica ou recriminação de um comportamento egoísta ou desrespeitador dos interesses dos outros já que uma consequência ou efeito adverso de puxamos a melhor brasa para a nossa sardinha é prejudicarmos as sardinhas dos outros que, privadas da melhor brasa, levarão mais tempo a assar ou não ficarão tão bem assadas.

Curiosamente há outra expressão com um significado igual levar a água ao seu moinho que é bastante menos usada muito provavelmente porque a imagem que evoca de um moinho de água para o qual canalizamos a água que o fará mover e moer o nosso grão é consideravelmente mais remota ou distante da realidade moderna.

Uma variação deste último ditado é Cada qual quer levar a água ao seu moinho e deixar em seco o do vizinho que faz referência direita às consequências de um comportamento individualista ou egocêntrico, interesseiro e comodista que não tem em conta os outros e as suas necessidade ou interesses. Encontramos ainda as frases: Cada um por si, e Deus por todos e Cada um sabe de si, e Deus sabe de todos que, num registo mais religioso, também critica o egoísmo ou a defesa dos proveitos ou conveniências pessoais em detrimento dos interesses dos outros ou do bem coletivo.

Eis alguns contextos em que estes idiomatismos podem ser usados:

— Finalmente consegui puxar a brasa à minha sardinha e convencer a minha chefe a aumentar-me o ordenado!

— Nos dias que correm é cada vez mais importante saber puxar a brasa à nossa sardinha para vencer na vida.

— Ele é tão teimoso que consegue levar sempre a água ao seu moinho.

OUTRAS EXPRESSÕES MENCIONADAS
chegar a bom porto
levar a água ao seu moinho
cada qual quer levar a água ao seu moinho e deixar em seco o do vizinho

Cada um por si, e Deus por todos
Cada um sabe de si, e Deus sabe de todos

EXPRESSÕES SEMELHANTES USADAS NOUTRA(S) LÍNGUA(S)
Cada uno en su casa y Dios en la de todos