A relação que os portugueses têm com o mar é muito forte. Portugal continental tem 943km de costa e a sua zona económica exclusiva é uma das maiores da Europa. A expansão portuguesa é um momento importante da história nacional e, naturalmente, associamos ao mar um conjunto de perigos mas também aventuras e riquezas. Não é portanto difícil para um português associar a imagem de alguém que fica em terra a ver o navio partir em vez de embarcar nele para uma viagem recheada de aventuras e recompensas com um desejo por satisfazer, uma vontade por cumprir, uma intenção frustrada. E é precisamente isso que esta expressão quer dizer. A expressão de hoje não é, portanto, difícil de compreender se a visualizarmos.

No Ciberdúvidas, descrevem-se três origens prováveis para esta expressão. A primeira hipótese é o sebastianismo ou o desejo de muitos portugueses que um herói valoroso venha salvar o país da ruína ou ocupação estrangeira.

O sebastianismo é uma crença que surgiu em Portugal no final do século XVI e que tem origem no desaparecimento do então rei D. Sebastião (1554-1578). Este rei, que subiu ao trono aos 14 anos de idade, desejava conquistar o norte de África e para tal levou o exército português para África para atacar os povos que ali residiam. Na batalha de Alcácer-Quibir, as tropas portuguesas sairam derrotadas. Muitos portugueses foram mortos ou capturados e o jovem rei desapareceu sem deixar rasto. Na sequência desta derrota, muitas das riquezas do reino tiveram que ser usadas para pagar os regastes dos prisioneiros de guerra e, como o rei não tinha descendestes diretos, a coroa portuguesa passou para o familiar mais próximo de D. Sebastião, o seu tio D. Filipe que na altura era rei de Espanha.

Como nunca se recuperou o cadáver de D. Sebastião, muitos portugueses acreditavam que este rei iria um dia voltar a Portugal e reclamar o trono que tinha passado para as mãos espanholas. Tal expectativa nunca se materializou mas o sentimento perdurou até ao presente.

A segunda hipótese é o dia-a-dia das pessoas que durante os tempos da expansão eram contratadas para avisarem os armadores ou donos dos barcos da sua chegada ao Tejo. Estas pessoas cujo trabalho era, literalmente, ficar a ver navios tinham a responsabilidade de vigiarem a entrada dos navios cheios de riquezas que chegavam de África, da Índia ou do Brasil à barra do Tejo para que os seus armadores os pudessem ir receber e supervisionar a sua descarga ao porto de Lisboa.

E a terceira hipótese está associada à história de um armador que estando a observar os seus navios assistiu ao seu afundamento provocado por uma tempestade.

Independentemente da sua origem, a expressão é usada para descrever o desapontamento ou a desilusão provocados por uma expectativa que não se materializou como nos seguintes exemplos:

Queria ir ao Baile de Gala mas quando tentei comprar bilhete já estavam esgotados e por isso fiquei a ver navios.

Devido um grave acidente rodoviário, o trajeto do autocarro n.º 742 foi temporariamente alterado e, sem conhecimento do que se estava a passar, os passageiros ficaram a ver navios

Comprei um bilhete para irmos à Madeira passar o réveillon ou passagem do ano, mas o mau tempo está a impedir todos os voos de e para aquele arquipélago portanto o mais provável é ficarmos em casa a ver navios...

 

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