O formato do podcast de hoje vai ser um pouco diferente do habitual.

Um dos nossos ouvintes, de nome Patrick, enviou-me a seguinte pergunta que passo a ler:

Perguntei à minha vizinha de onde era e ela respondeu-me “Alfacinha de gema.” Quando ela viu a minha cara de completa ignorância sobre a localização daquela vila ou aldeia portuguesa, decidiu elucidar-me dizendo que era “Lisboeta dos quatro costados.” A sua explicação ajudou-me a perceber que a senhora tinha nascido ou era natural de Lisboa mas continuo sem perceber o significado destas duas frases. Podia, se faz favor, ajudar-me a compreender as expressões usadas pela minha vizinha?

Antes de explicar o que querem dizer estas duas locuções, gostaria de dizer que tenho muito prazer em responder todas as vossas dúvidas sobre expressões ou usos de língua e tudo o que têm de fazer é enviar-me uma mensagem através do site: sayitinportuguese.pt

Tendo dito isto, passo a responder à pergunta do Patrick.

Um gentílico é um nome que indica a naturalidade ou nacionalidade de uma pessoa. Um português é oriundo de Portugal, uma madeirense nasceu na ilha da Madeira e uma açoriana é natural dos Açores. Na grande maioria dos casos, os sufixos -ês/esa, -ense e -ano/ana são adicionados à base do nome de um local para formar o gentílico. Outros exemplos, para além de “português,” “madeirense” e açoriana, seriam albanês [da Albânia], portuense [do Porto] e alentejano [do Alentejo].

Existem, todavia, outros processos de formação destas palavras que não seguem estas regras. Os naturais do Algarve são algarvios e os das Beiras, beirões. Há, inclusivamente gentílicos que nem sequer se parecem com o nome do local como por exemplo albicastrense, vimaranense ou escalabitano que fazem referências aos naturais de Castelo-Branco, Guimarães e Santarém, respetivamente.

Um grande número de locais tem mais do que um gentílico: as pessoas que nasceram em Coimbra, por exemplo, podem apelidar-se como coimbrão ou coimbrã, no feminino, conimbricense, conimbrigense, conimbrense, colimbriense ou coimbrense.

No caso das duas maiores cidades do país, Lisboa e Porto, existem dois gentílicos para cada uma delas. As pessoas com origens em Lisboa são conhecidas como lisboetas ou “alfacinhas” e os naturais do Porto, para além de portuenses, também são “tripeiros.” Os lisboetas são “alfacinhas” supostamente porque no século XIX existia uma moda na qual as pessoas usavam grandes laços farfalhudos ao pescoço que, aos moradores dos arredores de Lisboa, faziam lembrar alfaces e daí o apodo ou alcunha “alfacinha.” Os portuenses são tripeiros porque se orgulham de comer tripas ou intestinos de porco. Não se sabe bem quando, os habitantes da cidade invicta ofereceram ao exército destacado para a defender toda a carne que tinham, ficando apenas com as tripas de porco com as quais não podiam fazer mais nada exceto um guisado. Esse prato, conhecido como tripas à moda do Porto, tornou-se parte da culinária local e, por acréscimo, os habitantes do Porto passaram a chamar-se “tripeiros.”

Ambas as palavras são usadas com orgulho pelos habitantes daquelas duas cidades e frequentemente seguidas das locuções “de gema” ou “dos quatro costados.” “Gema” é a parte amarela do ovo que está rodeada pela clara e como está no centro do ovo consideramos que faz parte do seu âmago, da sua essência mais profunda. Por analogia, quando alguém diz ser “alfacinha [ou qualquer outro local] de gema” quer dizer que tem raízes profundas e genuínas nesse sítio. A segunda expressão quer dizer exatamente o mesmo, mas a sua origem está na mitologia bíblica da génese dos seres humanos que descreve a criação da Eva a partir de uma costela de Adão. Quando colocamos as palavras “dos quatro costados” à frente de um gentílico estamos a sublinhar que as nossas origens (isto é os nossos avós maternos e paternos) já eram oriundos do mesmo local onde nós nascemos reforçando assim a legitimidade da nossa pertença àquela região.

Quando a vizinha do Patrick disse que era “lisboeta de gema” ou “dos quatro costados,” ela estava a sublinhar o facto de se sentir verdadeira, legítima e, muito orgulhosamente, natural de Lisboa.

Antes de terminar, quero agradecer ao Patrick a sua pergunta e dizer que fico à espera de mais perguntas vossas.