— Olá, cara amiga, como estás? É tão bom ter-te de volta! Gostaste das tuas férias nos Açores?

— Infelizmente não. Nem fazes ideia do que passei. A minha avó faleceu inesperadamente e, por isso, tive de voltar para a minha terra a correr.

— Oh, os meus sentimentos. Ela estava doente?

— Não que se soubesse. Acho que a hora dela tinha chegado. Na minha última visita, a minha tia confidenciou-me que o médico lhe tinha dito que ela estava com os pés para a cova. Era de esperar que um dia ela fosse abotoar o paletó, como os brasileiros costumam dizer de alguém que morre de velhice.

— Parece-me um pouco desrespeitoso, não?

— Acho que não. O uso desta expressão é muito comum no Brasil, principalmente em conversas informais. Para perceberes melhor, tens de saber que, em tempos idos, o paletó era a peça de roupa que os homens só trajavam para ir à missa ou a festas e, sendo muitas vezes o único casaco que tinham, era também com este traje que eram enterrados.

— Talvez não seja o melhor momento para conversar sobre um tal assunto, mas estou muito curioso por saber se há outras expressões para descrever o fim da vida. Tal como em outros idiomas, devem existir muitas na língua portuguesa.

— Não te preocupes, estou em paz com o facto de a minha avó estar a dormir o sono eterno. E tens razão. Todos procuramos evitar qualquer menção direta à morte, e dessa “fuga” resultam inúmeros eufemismos, mas também disfemismos ou expressões irónicas, jocosas e mesmo cruas.
Na minha região, quando alguém morre, as pessoas mais idosas comentam que o defunto foi morar para a companhia dos pés juntos ou que bateu as botas. Ambas as expressões parecem ter uma origem militar, já que companhia é um grupo de soldados comandado por um capitão que faz parte de um batalhão e o ato de “bater a bota” é um procedimento executado quando um militar se retira da presença de um superior hierárquico e por analogia quando se retira da vida.

— Uma vez, ouvi uma enfermeira dizer que um dos seus pacientes tinha batido a caçoleta. Se calhar também está relacionada com o exército, pois “caçoleta” é uma arma de fogo antiga.
Antes que me esqueça, deixa-me perguntar-te como é que está o teu avô depois de perder a sua mulher.

— Ora, aí está um bom exemplo de eufemismo para evitar a palavra morte: perder alguém.
É muito simpático da tua parte perguntares, mas o meu avô já está nas malvas há muitos anos.

— Oh, lamento muito, não sabia.

— Não te preocupes.

— Suponho que estás a falar da sua última morada — outro eufemismo preferido pelos teus conterrâneos para descrever o cemitério.

Ir às ou para as malvas significa morrer e para, eufemisticamente, falar do cemitério dizemos estar nas malvas, já que a malva é uma planta que se encontra frequentemente nestes locais, talvez devido à sua cor roxa que, tal como o preto, também representa o luto. A minha locução preferida para eufemisticamente descrever cemitério é jardim das tabuletas, pois tabuleta é a placa de madeira ou mármore onde se inscreve o nome dos falecidos.

— Como os portugueses são muito religiosos, as expressões mais frequentes devem estar relacionadas com o paraíso. Tenho a certeza de que podes dar alguns exemplos.

— Claro que posso. A referência mais direta ao Deus da religião católica é: O capelão do hospital assegurou à família enlutada que ela tinha entregue a sua alma ao Criador depois de se confessar.
Mas existem outras, do tipo: Na semana passada, a avó da minha colega foi desta para melhor.

— Desculpa interromper-te. Acabo de me lembrar de outra expressão que ouvi num funeral. Durante o sermão, o padre disse que a falecida tinha ido para a terra da verdade.

— Muito bem! Todas essas são eufemismos neutros, mas existem também disfemismos — palavras ou expressões depreciativas ou mesmo desagradáveis, como esticar o pernil, uma expressão relacionada com o antigo ritual da matança do porco, que faz referência especificamente ao momento, antes de morrer, em que o animal dá um coice ou pontapé.

— Conheço outro disfemismo, mas acho que é falta de educação dizê-lo em público: dar o peido-mestre

— Creio que o eufemismo dessa expressão é dar o último suspiro e sim, tens razão quando dizes que não se pode usá-la à frente de pessoas que não conheces muito bem ou com quem não tens uma grande familiaridade.

— Mas porquê????? Por causa do verbo peidar-se?

— Sim. O termo técnico é “flatulência”, mas quando o comum dos mortais tem de fazer referência a esta libertação natural de gases intestinais, usamos as palavras “pum” para as crianças e “traque” ou “peido” entre adultos, mas quando estamos entre pessoas que conhecemos muito bem e entre as quais nos sentimos MUITO à vontade.

— Para um não-nativo, é importante conhecer essas nuances da língua, já que o dicionário apenas diz que é um termo “informal”.

— Pois eu aconselho-te a usá-la com cuidado, ainda que aos estrangeiros se costume perdoar esses erros e até achar graça.

— É verdade. Já me aconteceu várias vezes.

— Mais alguma expressão usada para descrever o ato de falecer?

Fazer tijolo ou tijolos — um idiomatismo que remonta à época da reconstrução de Lisboa. Depois do terramoto de 1755, foi necessário fazer tijolos e o melhor material para realizar essa tarefa encontrava-se num campo de terra argilosa que, no tempo dos mouros, tinha sido um cemitério. Foi esta terra misturada com ossadas que os lisboetas usaram para reconstruir a sua cidade e é daí que vem a expressão que usamos para dizer que alguém está morto e enterrado.
Quando visitares Lisboa, procura a Rua Forno do Tijolo que, como o nome indica, tinha um forno onde se cozeram esses tijolos de argila e ossos.

— Assim farei.