O teu podcast é ótimo para aprender a língua e, sobretudo, conhecer melhor a cultura portuguesa.

Em que sentido?

Por exemplo na admiração que todos os portugueses parecem ter pela época dos descobrimentos. Hoje em dia, fora de Portugal pouco se fala do teu país em termos político-económicos e é fácil esquecer que há seiscentos anos vocês foram uma potência naval.
Portugal desempenhou um papel de vanguarda nas explorações marítimas e como a navegação e a construção das famosas caravelas e naus faziam parte do dia-a-dia de muitos cidadãos, não surpreende que várias expressões tenham origem naquelas atividades.

Nunca tinha pensado nisso nesses termos mas agora que o dizes tenho que concordar que navegar à bolina (episódio 21), ficar a ver navios (episódio 46), chegar a bom porto (episódio 50), estar de maré e remar contra a maré (episódio 60) estão todos associados aos descobrimentos

Posso ainda acrescentar à tua lista: ir de vento em popa e desfraldar todas as velas cujo significado é obvio e evidente e não meter prego nem estopa.

Não meter prego nem estopa?????? Eu nunca ouvi essa máxima. Onde é que a encontraste?

Encontrei-a na internet, numa passagem do livro Ensaio sobre a Lucidez de José Saramago:

[...] permita-me que o interrompa, senhor primeiro-ministro, quero que fique claro que a responsabilidade das mudanças de lugar e de sentido das minhas palavras é unicamente sua, eu não meti para aí prego nem estopa.

Percebi, pelo contexto, que queria dizer não ter nada a ver com determinado assunto mas fiquei tão curioso que fui investigar. Infelizmente fiquei mais confuso do que estava e talvez tu me possas ajudar.

Posso tentar. Qual é exatamente a tua dúvida?

Em primeiro lugar a expressão. A expressão é diferente nos dois lados do Atlântico e tem significados diferentes.

A expressão não significa o mesmo em Portugal e no Brasil?

Parece que não. Em Portugal, a frase é: não meter prego NEM estopa e quer dizer não interferir ou não querer assumir nenhuma responsabilidade. Em certos contextos parece ser sinónima de não meter o nariz onde não se é chamado.
No Brasil dizem: não meter prego SEM estopa e usam-na para descrever uma pessoa muito cuidadosa e esmerada.

Chegaste a perceber qual é a origem da expressão?

Isso foi fácil!!! A frase está diretamente relacionada com a construção das antigas caravelas. Para evitar a ferrugem dos pregos usados para unir as tábuas dos cascos de madeira dos barcos e desse modo impedir a entrada de água pelo buraco do prego, os carpinteiros vedavam o furo com um pedaço de pano de linho ou estopa empapada ou ensopada com betume ou alcatrão. A navegabilidade dos barcos de madeira dependia então inteiramente do sentido de responsabilidade dos trabalhadores que faziam esta calafetagem.

Ah! Estou a ver: quanto mais perfeito fosse o sistema usado para vedar os furos dos pregos, mais resistente à água seriam os barcos e daí os brasileiros descreverem como cautos ou cuidadoso as pessoas que não metem prego sem estopa — ou melhor dizendo que fazem tudo na maior perfeição.

Nessa lógica, dizer que alguém não mete prego NEM estopa quer dizer que é um trapalhão ou uma pessoa que faz um trabalho atabalhoado ou mal-feito mas não é este o significado nem da frase do Saramago, nem dos outros exemplos que encontrei.

Quais foram os outros exemplos que encontraste?

Primeiro exemplo:

O deputado não quer meter prego nem estopa no novo projeto-lei.

Podemos parafrasear esta afirmação dizendo que o deputado não deseja interferir ou responsabilizar-se.

Concordo contigo.
Segundo exemplo?

O secretário-geral do partido afirmou que o antigo Primeiro-Ministro não tem de meter prego nem estopa na escolha do novo governo

Exatamente a mesma ideia de ausência de qualquer responsabilidade, ainda que aqui possa ser uma recomendação ou crítica como quando alguém nos adverte para não meter o bedelho ou o nariz onde não se é chamado (episódio 5)...
Mais algum exemplo?

Só mais um que encontrei num texto de um professor da Universidade de Coimbra (UC) sobre o Acordo Ortográfico:

Para além disso, qualquer razoável aprendiz das coisas do direito sabe que "coisas" há nas quais o direito não deve meter prego nem estopa.

Nesta frase, o significado da expressão também é o não envolvimento em assuntos que não nos dizem respeito...

Pois é. Acho que estou a perceber a tua confusão: enquanto a expressão brasileira está clara e diretamente relacionada com a sua origem e descreve alguém cuidadoso que se esmera a fazer o seu trabalho; a versão portuguesa adquiriu um significado diferente e é sobretudo usada para descrever alguém que não se quer envolver ou assumir responsabilidades.

BIBLIOGRAFIA

Ribeiro, Maria Sara Lobato - Mar de metáforas [Em linha] : a aquisição/aprendizagem de sentidos metafóricos com vocabulário marítimo por alunos de português língua não materna. Lisboa : [s.n.], 2011. 186 p.