Neste episódio vamos explicar a expressão pescadinha de rabo na boca. Ainda se lembram o que quer dizer a palavra rabo?

No contexto do episódio precedente a palavra descrevia a zona das nádegas de um ser humano e é sinónima de traseiro. Outra expressão que usa esta palavra é fugir com o rabo à seringa.

Os médicos podem receitar xaropes, comprimidos, supositórios ou injeções. Uma injeção pode ser administrada em uma das nádegas do paciente e é fácil imaginar uma pessoa que — não desejando levar uma injeção — se recuse a expor o seu rabo ou traseiro a uma médica ou a um enfermeiro. É esta imagem de alguém que tenta fugir com o rabo à seringa que dá origem à expressão usada em Portugal para descrever alguém que tenta, a todo o custo, evitar ou esquivar-se de fazer algo importante ou necessário.

No episódio de hoje, a palavra rabo quer dizer o mesmo que cauda, isto é o apêndice posterior móvel que animais como os ratos, esquilos, gatos e cães, mas também as lagartixas e os crocodilos têm.

A expressão fugir com o rabo entre as pernas, que significa o mesmo que fugir cheio de medo ou apavorado, está diretamente associada à imagem de um cão a fugir aterrorizado pois quando estes animais se sentem ameaçados, tendem a abaixar a sua cauda, chegando mesmo a protegê-la entre as suas patas traseiras, pois dessa forma parecem mais pequenos e, consequentemente, menos ameaçadores.

Costuma-se dizer que fulano ou beltrano (ver explicação no episódio 97) fugiu com o rabo entre as pernas para descrever alguém que se assusta ou entra em pânico e sai ou abandona rapidamente o lugar ou a situação em que se encontra, exatamente da mesma maneira que um cão com medo ou assustado foge do que quer que seja que o ameaça com a cauda, ou rabo, entre as pernas.

Na expressão de hoje, o rabo de que estamos a falar é de um peixe, mais especificamente a cauda de uma pescada.

Uma maneira tradicional de cozinhar peixe em Portugal é frito em óleo quente. Para que uma pescada de maior comprimento caiba dentro de uma frigideira, cuja forma é frequentemente circular, enrolamo-la, ou melhor dizendo, prendemos o seu rabo entre a sua mandíbula ou boca.

Quando um animal morde ou tenta agarrar a sua própria cauda, acaba por descrever um círculo fechado e projetar uma imagem de imbecilidade porque tenta fazer uma coisa completamente impossível de concretizar.

Quando queremos descrever uma situação cuja realização é impossível pois existem condições que não foram cumpridas dizemos que estamos perante uma pescadinha de rabo na boca como ilustram os seguintes exemplos adaptados de notícias de jornais portugueses:

A situação repete-se um pouco por todo o interior. A qualidade de vida existe em várias áreas, mas não há acessibilidades. É uma daquelas pescadinhas de rabo na boca: sem acessos não há pessoas, sem pessoas o Governo também não investe em acessibilidades.
 

Sem transmissões televisivas, não há público em larga escala. E, é claro, que sem audiências, não há tanto lucro comercial. É uma pescadinha de rabo na boca.

Para além de descrever a impossibilidade de realizar algo dependente de uma condição de difícil concretização, esta expressão é também usada como sinónimo de círculo vicioso como no seguinte exemplo retirado do portal Língua à Portuguesa:

Não sei se repararam que temos publicado cada vez com menos frequência... e que os comentários aos textos escasseiam cada vez mais... É a chamada pescadinha de rabo na boca, uma excelente imagem deste círculo vicioso: escrevemos menos por falta de incentivo por parte dos leitores, mas os leitores talvez comentem menos por falta de estímulo da nossa parte!

 

 

E antes de terminar, listamos as cinco palavras que escolhemos para este episódio:
1.     acessibilidades: infraestruturas de acesso que permitem a deslocação fácil de pessoas e bens
2.     audiências: espetadores de um programa de televisão ou de um filme
3.     lagartixa: pequeno bicho rastejante que se alimenta de insetos e tem a capacidade de trepar paredes
4.     nádegas: parte musculada e carnuda situada entre a zona lombar e as coxas
5.     supositório: medicamento com a forma de um cone que é inserido no ânus ou na vagina