Episódio 95 vão-se os anéis

Já várias vezes descrevemos axiomas da língua portuguesa que recorrem a uma imagem para descrever uma situação ou uma consequência tão evidente que não precisa de ser demonstrada.

Outro bom exemplo de um axioma seria: cair em saco roto. Para compreender este dizer popular português basta imaginarmos um saco com um buraco ou com o fundo rasgado para percebermos que o dito saco perdeu completamente a sua funcionalidade, isto é, perdeu a capacidade de reter ou guardar o que quer que seja que queiramos colocar ou transportar dentro dele. É assim fácil extrapolar que a expressão é usada para quando alguém diz ou faz algo inutilmente porque o destinatário da mensagem não deseja ouvir ou porque as nossas ações não têm qualquer impacto futuro.    

Usamos frequentemente este provérbio para descrever uma situação em que um conselho ou recomendação ou advertência foi, voluntária ou involuntariamente, ignorada ou desprezada pela pessoa a quem se dirige. Nessa situação esta expressão é sinónima de outra que explicámos no episódio 8: entrar por um ouvido e sair pelo outro e as duas podem substituir-se como nos seguintes exemplos:

Tentei avisá-la que o seu namorado era um crápula, mas os meus conselhos caíram em saco roto pois o amor é cego.

Tentei avisá-la que o seu namorado era um crápula, mas os meus conselhos entraram por um ouvido e saíram pelo outro pois o amor é cego.

 

Outra expressão que usa uma imagem facilmente identificável do nosso dia-a-dia para fazer uma advertência é: vão-se os anéis, ficam os dedos que os portugueses reduzem simplesmente para metade suspendendo a frase em vão-se os anéis...

Com a crise, foram-se os anéis... mas tenho esperança que, pelo menos, os bancos tenham aprendido uma lição.

Esta expressão quer dizer que por vezes perdemos o acessório ou é necessário abdicar do que é secundário, mas isso não faz mal nenhum porque o importante é reter o principal ou imprescindível. Considerando que as mãos são uma das partes do nosso corpo mais expostas e mais proeminentes, é fácil notar a existência ou falta de adornos como anéis e daí a frase recorrer a esta imagem. Podemos vender ou perder os anéis que revelam a nossa riqueza ou vaidade, mas ficam os dedos que são uma das mais importantes ferramentas do nosso corpo.  

A correlação entre usar muitos anéis nos dedos e exibição externa de riqueza é muito clara para uma pessoa de nacionalidade portuguesa devido a uma tradição que existe no norte de Portugal, mais precisamente na região do Viana de Castelo. As noivas desta região são conhecidas por, no dia do seu casamento trajarem o seu melhor vestido preto e colocarem todo o seu ouro ao peito. Quanto mais rica a noiva, mais ouro exibia já que era um costume comprar ouro como forma de investimento e quando casavam estas mulheres levavam consigo o ouro que tinham herdado das suas avós e mães bem como as prendas que, entretanto, lhe tinham sido oferecidas. A riqueza que possuíam (e levavam consigo para o casamento) era assim exibida publicamente para que se ficasse a conhecer o seu estatuto económico.

Este ouro funcionava como um pé de meia ou um porquinho mealheiro ou melhor dizendo uma poupança ou respaldo financeiro ao qual podiam aceder em caso de necessidade. Quando se encontravam em dificuldades económicas e precisavam de dinheiro estas mulheres vendiam todo ou parte do seu ouro para resolver os seus problemas financeiros e sair do aperto económico em que se encontravam.

Obviamente que não é agradável ser-se obrigado a vender o ouro para cobrir uma necessidade económica, mas há coisas bem piores e desta imagem nasceu o axioma vão-se os anéis, mas ficam os dedos. Por muito bonitos que sejam os nossos pertences ou por mais valor sentimental que possam ter (recordamos que no caso das noivas de Viana muito do ouro que usava no dia do seu casamento era herdado e ia sendo acumulado ao longo de muitas gerações), é sempre melhor ficar mais pobre vendendo os nossos anéis ou perder algo que valorizamos muito do que colocar em risco a nossa sobrevivência. Desta constatação da realidade que nos rodeia facilmente retiramos outra do foro moral e a expressão passa a fazer referência à necessidade de nos libertamos do que é secundário para descobrimos o que essencial.  Para clarificar melhor estes dois usos apresentamos os seguintes exemplos:

Estive desempregada mais de um ano e por isso tive de deixar o meu apartamento no centro de Lisboa e mudar-me para os subúrbios — foram-se me os anéis, mas ficaram-me os dedos.

Quando fui despedida muitas das pessoas que considerava como minhas amigas deixaram simplesmente de me falar. Foi aí que percebi quem eram os meus verdadeiros amigos — foram-se os anéis, mas ficaram os dedos!

 

OUTRAS EXPRESSÕES MENCIONADAS

cair em saco roto

Faça Login para descarregar os ficheiros.